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“UMA COISA LEVA A OUTRA” OU “O QUE É TÉDIO?”

03/12/2012 · 17:13  · 7 comentários



Sou um entusiasta da raça humana. De seres totalmente regidos pela natureza conseguimos criar uma quantidade de conhecimento e cultura que é assombrosa. Quem mais sobre a Terra acha beleza no por-do-sol ou no reflexo da lua sobre o mar? Quem mais enxerga padrões que viram leis naturais que nos ajudam a entender o universo que nos cerca? Quem mais fica estupefato com as explosões estelares que criam a poeira cósmica que nos compõe? Que outra espécie se preocupa se está causando mal ao meio-ambiente ou a outras espécies?

Esse preâmbulo foi só para dizer que diante de tanta diversidade cultural, de tantas línguas, formas de pensar, filosofias, religiões, músicas, livros, teorias científicas, de tanto que nunca saberemos, não consigo entender alguém que acha que o mundo é um lugar chato, maçante. Para mim qualquer fagulha intelectual começa mil fogueiras de curiosidade e aprendizado. Às vezes é um livro que leva a outro que conduz a um outro autor e aí se vão meses de desbravamento e deslumbramento com aquela questão de fundo: “Como pude viver até hoje sem conhecer esse autor - ou grupo de autores?”

Recentemente minha curiosidade foi atiçada para inúmeros caminhos diferentes só porque marquei uma viagem com a Luciana para comemorarmos 20 anos de relacionamento. Desde 2001 queríamos fazer uma viagem pela Provence, na França. A falta de grana nos fez adiar a viagem quando completei 40 anos, mas não esquecemos dela. Dessa vez marcamos com antecedência e isso fez toda a diferença.

Aqui começa a estrada. Já que tinha 3 meses de espera resolvi estudar francês para me comunicar melhor. Na faculdade de Letras – fiz 4 períodos na PUC – cursei Português-Francês. Mas isso foi no milênio passado. A falta de prática me fez esquecer quase tudo. Como consequência, sempre que ia à França, depois de uma semana o HD começava a encontrar fragmentos do meu aprendizado e começava a me virar bem. Mas, normalmente, já era o fim da viagem e não me valia de muito.

Me matriculei numa aula particular para garantir que o curso atenderia minhas necessidades. Não viajo para fazer compras, mas conhecer a cultura, a comida, a música, a vida, as cidades, as pessoas etc. Eram esses os assuntos que queria abordar nas minhas aulas. Mas é claro que os cursos não estão preparados para isso. Minhas curiosidades literárias caíam no vazio. Assim como todas as outras. Daí, segui por minha conta. Como tenho amigos muito mais cultos que eu, apelei para o Dapieve para me ajudar com os livros. Minha questão com a literatura francesa era de encontrar autores contemporâneos que me incendiassem a imaginação como os americanos e ingleses têm feito. Não me canso de ler Philip Roth, Ian McEwan ou Paul Auster. Mas quando penso na França só me vêm à cabeça escritores mortos. Maravilhosos, mas mortos. Falam com profundidade de tudo mas não falam de mim, de viver hoje no mundo. Em alguns minutos recebi uma listinha com vários nomes que nunca tinha ouvido falar. Jonathan Littell – que achava que era americano -, Tahar Ben Jelloun, Jean Echeloz, Hervé Algalarrondo, Cyrill Collard, Emmanuel Bove, Pierre Drieu de La Rochelle, Marc Villard e Jean-Marie-Gustave Le Clezio – desse só sabia que tinha ganho o Nobel de Literatura. Pelas minhas pesquisas anteriores conhecia Michel Houelebecq – de quem li o ótimo “Les Particules elementaires” - e Jean-Philippe Toussaint. Ou seja, uma simples data de partida já me trouxe um universo a explorar do qual nem comecei a arranhar a superfície.

Com música foi outra loucura de encadeamentos inesperados. A música pop francesa tem suas estrelas, mas não é páreo para a nossa música ou a de seus concorrentes anglo-fônicos. Para não perder a viagem musical pedi conselhos sobre música africana cantada em francês. Paris é o centro da world music e vem daí a efervescência musical do país. Amigos como Celso Fonseca e Vinícius Cantuária me deram uma pista de por onde começar. Meu primeiro deslumbramento foi com Amadou & Mariam, dupla do Mali - potência musical do continente com sua sede em Bamako. Que coisa maravilhosa! É o blues da África. Que vozes e ritmos! Acontece que nem tudo no trabalho deles é cantado em francês. Poucas coisas são em inglês e muita coisa em alguma língua que não identifico. E a falta de entendimento não diminui meu espanto e minha capacidade de fruição. Junto com a guitarra e as vozes dá para ouvir um pouco de tudo de mais interessante que é produzido na música mundial em geral como violino sírios, percussões indianas, trompetes cubanos e muito mais. De repente já não me importava mais em que idioma eram as canções. Me joguei na música africana com a ajuda de um francês que trabalhava numa loja de discos em Avignon. Comprei um CD maravilhoso da colaboração de um músico de blues americano com um guitarrista/compositor do Mali (de Bamako, claro). Minha viagem de Avignon para Aix-en-Provence foi ao som delicado e emocionante de Brothers in Bamako de Habib Koité e Eric Bibb. Outras indicações preferi ouvir no Rdio porque os CDs são muito caros por lá. De repente tenho uma lista com nomes como Carlou D, Fela Kuti, Salif Keita, Baloji, Mariem Hassam, Ali Farka Touré, Youssou N’Dour que representam a música do Senegal, do Congo, Sahara Espanhol, Marrocos e, é claro, do Mali. E tem muita coisa cantada em árabe e em diversos outros idiomas. Será que um dia eu resolvo aprender árabe? O Dapieve me disse que pensa em aprender alemão por conta do seu amor pela Ópera. Uma coisa puxa a outra e estou acompanhando atentamente a cena política do Egito cujo presidente recém-empossado tenta enfiar uma constituição islâmica garganta abaixo da população com o apoio da Irmandade Islâmica. O povo voltou à Praça Tahrir para protestar mas os EUA dessa vez estão do lado errado. Bom, isso não tem nada a ver com o nosso assunto. Ou tem?

E além dessa enchente de novidades litero-musicais tem as pessoas. Conversando com a minha vizinha de poltrona no vôo entre Paris e Marseille recebi dicas de cidades imperdíveis na Provence e um livro – o que me comoveu muito – escrito pelo Rilke sobre Cézanne, que nasceu e morreu em Aix-en-Provence. Em troca dei-lhe o Parcerias. Pascal, o gerente da loja de discos em Avignon é um entusiasta da música africana, assim como da brasileira, e dava para perceber a alegria dele em compartilhar seu conhecimento e seu deslumbramento. Quantas histórias as pessoas têm pra contar. Todo mundo tem uma boa história pra contar.

E, como vocês podem ver, uma coisa leva a outra que leva a outra e há sempre mais para se descobrir e aprender. Quem acha o mundo tedioso devia marcar uma viagem. Mesmo se desmarcar depois já vai ter modificado seu olhar sobre o mundo. O tédio é para as pessoas sem curiosidade, sem vontade de mergulhar na imensidão e no desconhecido. Se você estiver achando que a vida é uma coisa sem graça, pense primeiro se a culpa não é do seu olhar.

E olha que nem mencionei as descobertas científicas sobre a matéria escura e a energia escura que são 95% do nosso universo e que os cientistas nem desconfiam do que se trata. Ou seja, conhecemos mal 5% do que está ao nosso redor. Tédio?
 
Tags para este post viagem  | tedio  | provence  | franca  | africa  | mali  | literatura  | frances  | amadou-mariam  | habib-koite-eric-bibb  | senegal  | egito
 

se quiser professora de árabe, estou à disposição :)

só queria dizer isso antes de ir, amei o texto, preciso lê-lo com muita calma.

beijos

Adilah São Paulo (SP) · 3/12/2012 17:32

Que legal, Leoni! Amei o texto e concordo que é difícil mesmo sentir tédio com tanta coisa a se descobrir. Um amigo me mandou uma música do Koité há algum tempo, Fatma, e eu adorei. Essa minha visita ao site reacendeu a vontade de cavar mais. Valeu por compartilhar!
Bjos

anita Volta Redonda (RJ) · 3/12/2012 17:42

Muito bom mesmo o texto, também pretendo lê-lo com mais calma, deu uma vontade de aprender mais, como disse a Anita: "Reacendeu a vontade de cavar mais."
A partir de algum tempo pra cá, lendo muitas de suas publicações aqui, facebook e principalmente no twitter, me interessei bem mais por livros. Apesar de ter professora e leitoras dentro de casa, nem sempre o interesse é igual, mas estou mudando isso rs.
Enfim, admirável tanta inteligência. Quando crescer eu serei igual haha ;)


"Se você estiver achando que a vida é uma
coisa sem graça, pense primeiro se a culpa
não é do seu olhar."
Aderi pra vida!

Sâmia Moraes Carangola (MG) · 3/12/2012 23:11

O que torna seres diferentes e pensantes é a possibilidade de nos interessar por múltiplas coisas... Não dá nada melhor do que aproveitar as viagens para fazer exatamente isso que vc faz, conhecer o local, a cultura, o povo, a gastronomia... Tudo isso acrescenta no nosso conhecimento e na nossa bagagem cultural.

*** Fe *** Mogi das Cruzes (SP) · 4/12/2012 10:19

Adorei!

Rebecs PA · 4/12/2012 17:37

Excelente texto! Eu amo ler, amo estudar! :)

Vívian Quintãn São Fidélis (RJ) · 5/12/2012 10:31

Ameii...uma coisa leva a outra e cheguei até aqui... :)

wenyadreams RN · 18/6/2013 17:41

 
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