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LETRA, MÚSICA E OUTRAS CONVERSAS - RENATO RUSSO 1

04/10/2012 · 21:47  · 13 comentários


Trechos das entrevistas do Renato Russo para o meu livro
Postei hoje na minha página do Facebook e no Twitter uma única vez que iria publicar trechos da entrevista do Renato Russo para o Letra, Música e Outras Conversas e perguntei sobre quais composições as pessoas gostariam de saber o que ele havia revelado. Agora, no fim do dia, fui dar uma olhada e 35 canções haviam sido citadas. É impressionante como a obra do Renato continua viva e presente nas vidas das pessoas. E diversos sucessos ficaram de fora dessa listinha!

Vou revelar alguns trechos das mais votadas, Eduardo e Mônica, Tempo Perdido, Faroeste Caboclo, Índios e Metal Contra as Nuvens. Na entrevista ele fala muito mais do que só sobre suas músicas. Fala de política, amizade, sexualidade, educação, cultura, rock’n’roll, sucesso, depressão, drogas, trabalho, dinheiro, adolescência e muito mais. Mas são tantas páginas que é melhor ler no livro.

Vamos a algumas pérolas escolhidas entre as infinitas da entrevista:

Eduardo e Mônica:

“Foi baseada em pessoas que eu conhecia. Não tinha um Eduardo e não tinha uma Mônica, mas existiam várias meninas que eu juntei pra fazer a Mônica e vários garotos que juntei para fazer o Eduardo. Achei interessante essa história de pegar um garoto novinho, todo caretinha, pegando aquelas loucas que ouviam Janis Joplin. Aquela foi um bom trabalho. É até usada como texto de escola como exemplo de narrativa. A entrada da música já define bem os personagens. Enquanto o Eduardo está reclamando que ele tem que acordar para ir para o colégio, a Mônica ainda está no bar tomando conhaque. Essa é das minhas músicas que eu mais gosto.”

Tempo Perdido:

“Jovem é jovem em qualquer lugar do mundo, vai passar exatamente pelas mesmas coisas. Você pode estar numa taba, na Finlândia, na Suécia, mas o que se passa com o seu corpo, as suas preocupações com a sociedade são exatamente as mesmas. Sabe aquela coisa cheia de tesão, de não saber onde vai namorar direito, de experimentar coisas proibidas, das festas, da primeira vez que pega um carro.
Nas letras a gente procurava falar disso, mas sempre abrindo um pouco mais. Ao invés de fazer observações como o Ultraje fazia, ou mesmo vocês que eram mais específicos, em "Conspiração Internacional" – você fala de abrir o armário, de ler a revista, de entrar na fila -, a gente ia para um outro lado, pegava essa situação e colocava assim: "A tempestade que chega é da cor dos seus olhos castanhos".

“Gosto de pegar certas frases, não só o desenho musical das frases, e mudar de lugar. Uma coisa que entra no refrão, daqui a pouco entra no meio do verso. Ou no fim da música repito a mesma frase só que de outro jeito. "Tempo Perdido" é exatamente a mesma coisa do começo ao fim, mas a melodia muda o tempo todo. É uma forma de trabalhar inspirada em bandas pós punk: Public Image, Gang of Four, Echo & the Bunnymen. Como fazer com uma técnica limitada algo que chame a atenção e que tenha mais valor.”

“No final de "Tempo Perdido" tem uma vinheta só de violão, voltando com a música por um minuto e meio. A gente pensou em usar um outro nome para a vinheta, mas era "Tempo Perdido" mesmo e ficou assim.”

Faroeste Caboclo:

“"Faroeste Caboclo" escrevi em duas tardes sem mudar uma vírgula. Foi: "Não tinha medo o tal João do Santo Cristo..." e foi embora.

Leoni- Você não imaginou os personagens antes?

Renato- Não. Eram coisas que mesmo sem querer, sem perceber, já vinha trabalhando há muito tempo e na hora que vai escrever vem direto. Eu sei porque foi fácil. Ela tem um ritmo muito fácil na língua portuguesa. É em cima da divisão do improviso do repente.

Leoni- O enredo também foi improvisado? Você saiu escrevendo e as ideias foram vindo?

Renato- As coisas foram aparecendo por causa de rima. Se eu falo do professor, ele tem que parar em Salvador. Se fosse outra rima ele ia parar em outro lugar. Basicamente já sabia que tipo de história ia ser. É aquela mitologia do herói, James Dean, rebelde sem causa.

Leoni- Parece um conto adaptado.

Renato- Mas se prestar atenção tem um montão de falhas. Como é cantado as pessoas não percebem. Uma vez, o pessoal da R. Farias queria fazer um filme. Foi quando deu pra perceber como tem furo na história. Parece que faz sentido, mas por que cargas d'água esse homem encontra esse boiadeiro em Salvador? Que história é essa de trocar, "eu fico aqui, você vai pra Brasília"? Por causa da filha? Porque Maria Lúcia fica com o Jeremias? Não dá pra entender! Você tem que bolar sua própria história. O máximo a que cheguei é que ela era uma viciadona e o Jeremias era tão mal que disse: "Se você não casar comigo vou matar o João". Mas também não justifica. E o Santo Cristo é um banana? A menina apaixonada por ele e ele fica andando com o Pablo pra cima e pra baixo. Ele é gay? Tem uma porção de coisas na história que não batem, mas quando a gente ouve no rádio funciona muito bem.
Uma que funciona muito melhor é "Eduardo e Mônica". Essa faz bastante sentido.”

Índios:

“"Indios" foi feita lá (no estúdio). Inventei aquele tema (canta o tema do teclado), o resto da música e foi a última letra que escrevi. O disco já estava virtualmente pra sair e no último dia pensei: "Saco, agora eu vou ter que escrever essa letra!" Veio aquela letra toda de uma vez.”

“Músicas muito mântricas como "Indios"dão uma liberdade muito grande pra escrever a letra. Mas se tiver que mudar (a melodia) eu mudo. Essa tinha o "Quem me dera ao menos uma vez" sempre, mas depois muda. Mas mesmo quando muda muito, cada música tem uma lógica interna.”

“Em "Indios" eu queria fazer uma brincadeira em cima da Xuxa. Era pra ser tipo um Clube da Criança junkie. Falar a coisa mais séria do mundo do jeito mais banal: (canta com voz de paquita) "Estamos cantando, sorrindo e brincando". A música começa como se fosse uma criança falando, não sei se você percebeu isso: (canta com voz de criança) "Quem me dera ao menos uma vez / ter de volta todo o ouro que entreguei a quem / conseguiu me convencer que era prova de amizade". Meio Mara Maravilha ou Menudo.”

Metal Contra as Nuvens:

Leoni- O que me incomoda no "V" é que parece um disco progressivo. "Metal contra as nuvens" tem mais de 11 minutos, "A Montanha Mágica" tem mais de 7, "Vento no Litoral" tem mais de 6 e não são as únicas.

Renato- Mas isso foi de propósito. Porque o "Quatro Estações" foi o disco com o formato mais pop de todos e se a gente fizesse isso outra vez ia ter que ficar se repetindo o resto da vida. A gente decidiu fazer um disco completamente lento porque, pelo que estava acontecendo na nossa vida, com o Collor, a gente não estava conseguindo fazer músicas pra cima. "Metal contra as nuvens" poderia ser uma música de 3 minutos mas na hora de montar, em vez de repetir uma vez a parte, a gente repetiu 4. "Agora tem o verso, e agora?" "Vamos repetir aquela parte de novo 4 vezes". Isso tem a ver com drogas, tranquilizantes, barbitúricos, Valium, heroína, que te deixam len-to e ar-ras-ta-do. Era um comentário musical em cima disso. Não muito a sério. E continha uma grande decepção em relação ao sucesso.”


 
Tags para este post segunda-edicao  | renato-russo  | entrevistas
 

Ansiedade mata! Essas prévias tão me deixando louca. Que quero esse livro já!

God Uberaba (MG) · 4/10/2012 21:49

Leoni, quero te agradecer! Agradecer por compartilhar conosco essa entrevista! Renato é um ídolo! E, mais que isso! Ele é um poeta! Digo "é" por estar sempre presente em nossas vidas! E, agora você o torna ainda mais vivo!
É emocionante ler uma entrevista dessas! Meus dois ídolos conversando! Dois homens ímpares da música brasileira, nos presentando com explicações! Ao ler esse trecho, me senti "ouvindo" essa conversa entre vocês!
Acho que nós, 'ouvintes', 'expectadores', temos sede de cultura, de histórias, de reviver momentos que talvez muitos de nós nem vivemos, a não ser pelas músicas, pelos depoimentos, gravações...
Muito obrigada por esse presente!!


Rachel Juiz de Fora (MG) · 4/10/2012 21:50

Nossa! Matéria divina! Renato sempre será o poeta dos poetas! Na entrevista dá pra perceber o ''dom'' que ele tinha de escrever, por ser tão espontâneo e tocar lá no fundo de nossas almas com estas letras amadas por uma imensa ''Legião de fãs''! Parabéns Leoni!! Você e Renato são meus cantores e compositores ''top 10'' ! Abraços!!

Beti Curitiba (PR) · 4/10/2012 21:56

Fantástico. Acho muito interessante saber os processos de composições e também como o compositor enxerga a própria música.. que material rico, único, maravilhoso! Parabéns, Leoni!


Julian Petrópolis (RJ) · 4/10/2012 22:07

Com certeza quando sair, eu comprarei... neste livro, estará sendo narrada a história do rock nacional contada pelos próprios protagonistas. Eu vivi estes anos e as musicas destes artistas foram e são a trilha sonora da minha vida. Quando quero me lembrar de algo marcante, penso em determinada música e todas as lembranças e memorias voltam. Estou na espera do livro, Leoni. Abraços!!!

Denis Correia Rio de Janeiro (RJ) · 4/10/2012 22:45

Faço das suas palavras as minhas Julian, material rico, único e maravilhoso. Que bela entrevista, Leoni, você tem em mãos, muito obrigada por compartilhar conosco, ótima oportunidade para sabermos melhor não só o processo de composição das músicas mas também conhecer melhor a personalidade e a forma de criar do compositor.
Esse trechos estão até diminuindo a minha ansiedade pela espera do livro :)
Assim como você, Renato Russo é um dos compositores que admiro e respeito.


Sâmia Moraes Carangola (MG) · 4/10/2012 23:20

Que tudo essa entrevista com o Renato! Louca pra ler todo o resto! Muito legal saber essas histórias por trás das letras! Nunca poderia imaginar que ele pudesse pensar na Xuxa, nas paquitas pra cantar Índios! rs
Obrigada por compartilhar!

Vívian Quintãn São Fidélis (RJ) · 4/10/2012 23:44

Gosto do começo da entrevista quando ele indaga sobre "Será"

"...Tire suas mãos de mim
eu não pertenço a você
não é me dominando assim
que você vai me entender..."

Todos acham que ele diz isso para uma pessoa... E não era... Era pra gravadora deles... rs
Achei o máximo!
Ele é o máximo!

Leoni, você acertou (e muito) em relançar este livro. Tenho ainda meus 3 exemplares lá ainda da primeira edição... Volta e meia tem um amigo pedindo emprestado... Gosto de ver a reação deles quando devolvem o livro... e os comentários então... Todos extasiados!
Já quero essa segunda edição também!
Não poderia faltar na minha coleção... :-)

Alê Borges Manaus (AM) · 5/10/2012 10:46

Meretíssimo senhor Leoni: LEITURA OBRIGATÓRIA. Vejam o poder da internet mais uma vez botando pra fu...

http://collectorsroom.blogspot.com.br/2012/10/turne-brasileira-do-destruction-e.html

Peixe Alpinista DF · 5/10/2012 15:11

Nada como uma degustação para atiçar o paladar...

hpequeno Rio de Janeiro (RJ) · 7/10/2012 13:22

É muito interessante conhecer a história de canções tão maravilhosas, para as quais vivemos criando tantas e tantas interpretações e perceber que muitas vezes o que imaginamos não tem nada a ver com o pensamento dele ao escrever... A cada explicação senti aparecer um sorriso de admiração no meu rosto enquanto lia... Adorei as ideias dele em ''Índios''!! ''Faroeste Caboclo'' é uma grande prova da naturalidade como se manifestava o dom de Renato Russo para compor!! Saber desses detalhes através de um diálogo de dois ídolos me fascina!! estou aguardando ansiosamente o lançamento do livro e quero muito conferir e me surpreender com cada uma das entrevistas feitas por você Leoni!!

Alice Vieira Juiz de Fora (MG) · 8/10/2012 02:21

Que bom saber que ainda existe otimos conteudos guardados em baus que começam a se abrir para a sociedade... Fico Feliz por le essa pequena amostra guardada a 7 chaves e que você pretende abrir pra nós!!! Parabens pela iniciativa, uma dica, gostaria de saber um pouco sobre como surgiu algumascompsições suas também, se o livro puder vim com essa pitada especial vai ser mais um motivo pra comprar... no aguardo!

Marcospbezerra CE · 8/10/2012 12:31

Poxa, não ter entrevista do Renato na íntegra???
Que triste...

Elaine.Sakura RJ · 9/12/2012 11:32

 
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