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LETRA, MÚSICA E OUTRAS CONVERSAS - NANDO REIS 2

06/11/2012 · 20:08  · 6 comentários


Marisa ajudou Nando a se tornar um grande compositor
Nesses trechos selecionados de Letra, Música e Outras Conversas o Nando explica como a parceria com a Marisa Monte foi fundamental para sua carreira de compositor. De quebra explica as letras de "Para querer" e "Diariamente". É muita coisa porque ele fala compulsivamente, o que revela como seu estilo de compor tem a ver com a sua fala. Recomendo a leitura, que por sinal tem momentos hilários como a explicação do verso "Vacas mas sem vogais".


"L.- Você conheceu a Marisa antes do "Tudo ao mesmo tempo agora"?

N.- Sim. Conheci na época do Õ Blesq Blom. Os Titãs vieram fazer um programa da Globo chamado Babilônia: era Titãs e Marisa Monte cantando "Comida". Já tinha visto um show dela em São Paulo e tinha gostado pra caralho. Sentei com ela nessas gravações que demoraram horas e insistentemente fiquei falando que queria compor com ela. Eu estava convidando-a, seduzindo-a pra compor, já percebendo que eu podia ter experiências extra-Titãs. Que talvez isso fosse útil."

"Ela foi no hotel e eu mostrei essa letra enorme que eu tinha compilado dos meus poemas. Depois ela me mandou uma fita com três melodias.

L.- Ela faz melodias inteiras?

N.- A Marisa faz, ela compõe sem instrumento. Muitas coisas ela faz assobiando, depois harmoniza da maneira mais simples, com três acordes. E coisas que são sofisticadas, com melodias lindas! A Marisa é uma melodista com enorme facilidade pra fazer coisas diferentes e buscar saídas inesperadas. Ela me mandou três melodias: uma é "Para Querer", que está no meu disco...

L.- A letra é sua?

N.- A letra é minha. Foi a primeira vez que fiz letra sobre uma melodia.

Ela mandou essa, mandou a melodia de uma música que a gente nunca terminou a letra e a terceira foi "Ainda lembro" - que foi a primeira vez que a gente sentou junto pra trabalhar. Ela veio a São Paulo, fui ao seu encontro no hotel e ela já tinha uma ideia da letra. Praticamente só ajudei a terminar. A melodia é inteiramente dela e só fui dizendo que o que ela estava fazendo era ótimo. A Marisa é um pouco tímida em acreditar na sua capacidade de fazer letras. Eu funcionei pra ela falando: "Acredite! Vamos nessa!". Participei como o cara que ia estimulando e resolvendo algumas dúvidas dela.

O "Para Querer" não! Fiquei dias com essa fita, obcecado pela ideia de fazer pra agradar a Marisa, fazer uma coisa impactante que não poderia ser semelhante a nada, precisava ser uma coisa muito própria minha, muito típica. Pra ela falar: "Só esse cara podia fazer isso." Usei uma ideia antiga minha que já tinha tentado numa música para os Titãs - minha, do Charles e do Marcelo: (cantando) "Homens funcionam iguais às formigas / tocas e casas com suas famílias / folhas e carnes para serem comidas / formigas e homens levam a mesma vida / Obedientes, precisam de ordens". Gosto de coisas assim, meio hino."

"...Dessa música trouxe a ideia das semelhanças que têm homens com vegetais, com minerais e como reconhecer nisso uma divindade na organização da natureza, no milagre da vida. E como identificar beleza nas suas formas rústicas aparentemente desprovidas de beleza. Esse é o assunto que me instiga para fazer música."

..."Eu sou encantado pela beleza, pelo mistério. Em "Para Querer", o assunto era esse, era um pouco a minha maneira de ser religioso. "Cascas a sua casa", quer dizer, a casca é a casa da laranja, a laranja mora ali. "Pernas as suas patas", eu posso olhar e achar que são patas, não são pernas. Você é um animal, você é uma formiga. "Filhos igual caroços", a semelhança que tem entre o caroço que é a germinação de um vegetal e o filho, o sêmen. É cheio de coisas antitéticas que tem essa semelhança pela oposição e que associadas criam um efeito estranho. E isso em cima daquela melodia toda angelical, toda sofisticada. Era um quebra-cabeças.

L.- Você respeitou a melodia exatamente como estava?

N.- Exatamente. Foi um trabalho de ourives. Eu queria pegar aquilo que eu achava perfeito, muito bem resolvido e descobrir a palavra exata, não poderia ter outra letra, nem uma vírgula a acrescentar. Gastei muitos dias fazendo. "No berço fóssil / Um gelo sol / Netos ao redor", é acreditar na vida, nessa propagação do clã. "Saiba do pior / para querer". "Vacas mas sem vogal" era um verso que a Marisa sempre implicou. Ela não entendia e eu sempre falei: "Marisa, essa música, das que a gente tem, é a mais bonita e você cantando ia ficar do caralho." Mas eu sentia que ela era resistente e eu pedia pra ela me explicar porque. Ela disse: "Não consigo entender esse verso e só consigo cantar se sei o que estou dizendo". E eu achava maravilhoso. De jeito nenhum eu ia permitir mudar aquele verso perfeito, nem pra agradá-la. "Vacas mas sem vogal": A vogal A é a mais feminina de todas, é um artigo. A vaca é um animal feminino porque ela é que dá o leite e é sinônimo da puta. É como se você pudesse pensar na mulher sem feminilidade: tirar os "as" das vacas, deixar só os "v", "c", "s", aquela coisa espinhuda. Tinha sentido, não era um verso aleatório, esquisitinho, não era um truque com palavras legais combinadas. Não! Fazia sentido com a letra. Era tenso, denso. Um argumento que me faltou pra convencê-la era que a gente tinha letra, melodia, mas não tinha um arranjo. Eu não conseguia tocar aquilo no violão, não conseguia cantar aquela música tão típica da Marisa. Essa foi a primeira letra que mandei pra ela e que estabeleceu nossa parceria, principalmente para o repertório dela.

Mas o mais importante na história com a Marisa foi quando fiz o "Diariamente", que era uma lista enorme feita num hotel com várias páginas com associações. Não eram aleatórias, mas era só uma listagem. Não sabia muito bem o que fazer com aquilo, mas ficou na pasta que eu carregava comigo. Quando vim ao Rio fazer o show do Õ Blesq Blom no Canecão já estava interessadíssimo na Marisa, apaixonado por ela, pela artista, pela pessoa e resolvi fazer uma música usando essa letra. E fiz! E consegui, cortando, cortando, cortando, identificar um sentido que antes não tinha. Ele se esclareceu quando escrevi "Para você o que você gosta / diariamente". Foi quando vi que através dessas associações, dessas imagens sobrepostas e inesperadas, sugeri o perfil de uma pessoa. Tem vários aspectos biográficos: "Para escolher a compota: Jundiaí", porque a Cida, minha empregada, é de Jundiaí e fazia compota; "Para parar na Pamplona: Assis", o Belloto mora na Pamplona e Assis é a cidade onde nasceu. Tem uma série de coisas que na verdade sou eu me oferecendo para ela. E daí fiz a melodia.

L.- É bonita a melodia.

N.- É bonita! E fiz muito rápido! Liguei pra ela e cantei a música. Eu não tinha nem gravador. Eu tinha um problema sério: nessa época eu escrevia muito e não tinha gravador. Então desperdiçava uma porrada de coisas. Ela adorou. Comecei a acreditar que pudesse fazer melodias de verdade porque confiava muito no gosto da Marisa, muito mesmo. O critério dela é confiável. Foi um componente de autoconfiança muito grande pra eu começar a resolver um problema sério de não ter melodias para o que eu escrevia. Não é que eu nunca tivesse feito, mas até então eram coisas esparsas e muito distantes pra eu achar que era um compositor. Nos Titãs mesmo eu não era. A banda me ocupava muito, mas parecia que eu só conseguia funcionar inserido naquilo. Fora disso eu não sabia como me estruturar. Quando eu e a Marisa começamos a namorar e, por causa do namoro, a trabalhar com mais frequência, adquiri confiança. Até pelo exemplo dela, por ver como se faz uma melodia, como se foge de uma solução óbvia. Antes, tudo o que eu fazia achava que era plágio. Eu a via ousar, aprendi mas levei pra ela muitas outras coisas. Foi uma grande troca. Quando fui procurar outras pessoas pra compor, como o Brown e o Herbert, queria muito conhecer outras maneiras de fazer música.
"
 
Tags para este post segunda-edicao  | nando  | reis  | entrevista  | revisao
 

Sensacional essa entrevista!!!
Adoro as letras do Nando, são sempre cheias de significados que quase ninguém imagina.
Essa dá vaca foi ótima.
Aaah, quero meu livro já! hahaha

Sâmia Moraes Carangola (MG) · 6/11/2012 20:17

Acho ele um cara incrível!!! E essa entrevista foi uma delícia pra ler.. me diverti mto!!
Aaah, quero meu livro já! hahaha [2]

Cássia Ribeiro Salvador (BA) · 6/11/2012 23:07

Aaah, não fecha essas aspas ainda, estava tão interessante. Ficaria um dia inteiro "lendo o Nando", pena que acabou... Estou desenvolvendo um trabalho sobre transposição de linguagem e as letras do Nando são o insumo de toda inspiração.
P.S.:
"Aaah (de novo), (não sei do que se trata, mas pra manter o ritmo) quero meu livro já! hahaha [3]"

Nana_mix Salvador (BA) · 7/11/2012 08:23

AMEI! Aaah, quero meu livro já! hahaha [4]

Vívian Quintãn São Fidélis (RJ) · 7/11/2012 11:36

Adorei a entrevista, parabéns!

Puck SP · 8/11/2012 07:43

Puck, a entrevista é muito maior que esse pequeno trecho publicado. E ainda entrevistei o Renato Russo, Herbert Vianna, Samuel Rosa, Lobão, Frejat, Marina e Adriana Calcanhoto.

leoni Rio de Janeiro (RJ) · 8/11/2012 09:14

 
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